• Cláudia Faria

Uma conversa com a tristeza

Esta semana trago mais uma vez a nossa parceira Márcia Arnaud.


Pois é, a Márcia gostou tanto de participar no nosso cantinho virtual que propôs vir aqui partilhar connosco os seus artigos uma vez por mês. E, claro, quem já me conhece já sabe que seria incapaz de recusar o nosso cantinho a quem quer fazer parte dele.


Já que temos uma "psicóloga de serviço", estejam à vontade para sugerir temas dentro da área da psicologia infantil/juvenil. Tenho a certeza que a Márcia irá abraçar as vossas sugestões e presentear-nos com as suas reflexões.


Esta semana a Márcia trouxe o tema da tristeza na infância e alguns conselhos sobre como lidar com as emoções dos nossos pequenos.


Grata por tudo, Márcia!



Uma conversa com a tristeza

por Márcia Arnaud


Quantos de nós vão a correr ter com uma criança quando a veem chorar? Quantos de nós tentamos acabar rapidamente com o seu sofrimento (e o nosso também, sejamos sinceros!), acolhendo este pequeno ser nos nossos braços? E o que é que costumamos dizer? Isso mesmo que está a pensar: "Está tudo bem! Já passou! Não chora, sim? Pronto... Que lindo/a menino/a!"? Mas será que a tristeza desaparece assim? Quase nunca…

Este primeiro impulso é mais forte do que todos nós, é certo, mas já fantasiaram sobre o que se passará na cabeça das nossas crianças e no sentido (literal) destas palavras que lhes dizemos? Imagino algo do género: "Ora se me está a doer, como é que me podem dizer que já está tudo bem e que já passou?! Se calhar devo mesmo parar de chorar (?) Será que já não sou mais lindo/a?". As nossas palavras, com a melhor das intenções, levam as nossas crianças a tentar esconder essa tristeza, bem fundo dentro de caixinhas na sua cabeça, para fazerem aquilo que lhes pedimos, serem crescidas e meninas/os lindas/os (como nós gostamos delas). Assim, ganham medo, medo da tristeza, medo do que farão com ela, medo do que acontecerá quando ela aparece e de como os outros lidarão com ela.

É um facto que a tristeza de uma criança deixa-nos assustados, aflitos até. Ver os nossos - frágeis, tristes e a chorar - dói na alma com cada lágrima que lhes cai e a cada grito, deixando o nosso coração apertadinho e quase sem conseguirmos respirar. Se calhar é por tudo isso que a tristeza é das emoções menos acarinhadas por todos e, pelos pais em particular. Temos de aprender a enfrentá-la, sem medos, porque ela, como qualquer outra emoção, serve para comunicarmos algo ao outro. É através da tristeza que expressamos que algo não está bem connosco e, essencialmente, é através dela que mostramos que precisamos de ajuda, conforto, e, por isso, é essencial para procurarmos o outro para nos apoiar.

Mas o que é que podemos fazer com a tristeza, afinal? Como acho que qualquer conversa sobre emoções fica bem mais acolhida com um livro infantil, a minha sugestão deste mês é "Quando a tristeza chama"(da editora Livros Horizonte) de Eva Eland onde, com as suas delicadas ilustrações, nos leva num caminho a dois: nós e a tristeza.


Não vale a pena teres medo da tristeza. Ela dói cá dentro de nós mas, faz-nos sentir estranhos e fazer coisas estranhas. Mas, como qualquer outra dor, só a conseguimos solucionar quando sabemos de onde vem. E para descobrirmos, precisamos de fechar os olhos, falar com ela baixinho e perguntar-lhe de onde vem e do que precisa. De onde é que podes vir, Tristeza?

É importante mostrar que percebemos que a criança pode estar a sentir-se assim, que está tudo bem em sentir-se triste - isto é, é importante validar a sua experiência emocional e, depois sim, tentar perceber de onde vem essa tristeza. Se muitas vezes a razão da tristeza é nos conhecida, porque é uma tristeza reativa a algo concreto do nosso conhecimento, existirão muitas outras vezes cuja origem é desconhecida de todos. Quando a criança reconhece o que está a sentir - que está triste - não há nada melhor do que perguntar-lhe diretamente a causa. Sei que achamos que as crianças não têm capacidades para falarem das suas emoções (ou de emoções, em geral), mas elas darão a resposta adequada à sua maturidade e, aí, parte de nós tentar trabalhar essa resposta. Algo importante: não negar a emoção da criança! Não desvalorizar o que está a sentir! Ajudá-la a perceber de onde vem e o que pode fazer para deixar de se sentir assim (evitemos a distração, porque não será solução, obviamente!). Acima de tudo, a criança precisa de se sentir compreendida e acolhida na sua experiência emocional e ajudada a encontrar soluções.

No entanto, a maioria das vezes, as crianças não sabem que estão tristes. O que devemos fazer aí? Traduzir os seus comportamentos! O papel mais importante, dos adultos, é fazer a tradução daquilo que não é expresso, isto é, ler e traduzir os seus comportamentos.

“Sabes, às vezes não conseguimos parar um segundo quietos... Parece que temos sempre de nos estar a mexer de um lado para o outro, a fazer alguma coisa, a brincar, no tablet, a falar... Muitas vezes fazemos isso porque estamos tristes e não queremos parar, para não sentir essa coisa estranha dentro de nós, para não pensarmos sobre isso...”

A tristeza pode ser difícil de detetar nas crianças, principalmente porque estamos à espera que se expresse da mesma maneira como nos adultos. Esquecemo-nos que as crianças ainda estão em crescimento e que, por isso, a sua forma de expressar as emoções é ainda imatura e, tendencialmente, não-verbal. A tristeza chega sem avisar e mostra-se nos nossos olhos com cada lágrima que deles escorre ou nos olhos secos, com um olhar vazio. Manifesta-se na dor de barriga que nos faz querer ficar aninhados na cama ou na agitação do corpo que não nos deixa parar um segundo, aproximando-nos e afastando-nos do outro. Surge no coração quando parece que ele foi partido aos pedacinhos e que não há conserto possível. Vem nas palavras aguçadas de uma rabugice imponente (e opositora!) que teima em deixar-nos zangados. Está na metamorfose em Monstro das Bolachas, devorando tudo o que conseguimos, ou na falta de interesse na comida. Está nas febres altas ou nas inflamações repetidas. Aparece nas ausências em viagens à lua ou na dificuldade em seguir uma mosca com o olhar.

As crianças ainda não têm capacidade para fazer a ligação entre os seus comportamentos e as suas emoções (sentindo-as como duas coisas independentes entre si) e, muito menos, de traduzi-las por palavras. Cabe aos adultos auxiliar este processo, ensinar que quando nos sentimos de determinada forma, podemos nos comportar de acordo com esse sentimento. A lista de comportamentos associados à tristeza é bastante variada mas, a chave é (sempre!) conhecer a criança e perceber como é que, aquela criança em particular, tende a manifestar-se.

À medida que vão crescendo, o exercício deixa de ser tanto o adulto a "adivinhar" o que a criança está a sentir, mas sim o adulto a estimular a criança a ser ela a perceber o que sente. O cérebro começa a evoluir e a criança começa a conhecer-se e a conseguir fazer associações causais entre os eventos e os seus sentimentos; entre aquilo que sente e aquilo que se passa no seu corpo; entre aquilo que sente e os seus pensamentos.

“Tenho me apercebido que tens estado assim um pouco diferente. Como é que te sentes? Porque é que será que tens te sentido assim?”

Pode parecer um processo difícil este de ler as emoções e os comportamentos das crianças mas nunca estamos sozinhos. Partimos do princípio de que tudo o que é em excesso e prolongado no tempo é sinal de alerta. Sempre que sentirmos algo de estranho podemos (e devemos, arrisco!) pedir ajuda a um profissional - seja um psicólogo, um pedopsiquiatra ou a um pediatra. Deixemos que a tristeza faça o seu papel nas nossas vidas, deixemos de ter medo que ela surja e tentemos entendê-la.

Por Márcia Arnaud


Para seguirem de perto o trabalho da Márcia, deixo aqui os links:

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