• Cláudia Faria

Silêncio: uma prova de amor

É terça-feira, e esta terça não me baldei ao artigo das parcerias. Não sei se deram pela falta na semana passada mas, de facto, tem sido duro conseguir cumprir com todos os desafios que me propus e precisei de uma pausa.


Hoje trago a nossa psicóloga de serviço, a Márcia Arnaud que "tinha este assunto a pairar na cabeça e por isso, teve mesmo de escrever este artigo e deixar os temas solicitados por vocês para as próximas publicações. Acho que ninguém vai levar a mal, todos sabemos que quando temos coisas a pairar na cabeça mais vale deitar cá para fora.



Silêncio: uma prova de amor



Há esta crença generalizada entre os adultos de que aquilo que as crianças dizem não tem grande importância, desvalorizando o que nos contam ou querem contar, misturado com a tendência para as diminuir, como se não fossem suficientes para serem levadas a sério. Se o que uma criança tem para dizer deve ser valorizado, também o seu silêncio deve passar a ser respeitado.


Todos tentam preparar os adultos para os movimentos de exploração do mundo das crianças, quando procuram explorar o que as rodeia, testando os limites da sua tolerância à distância das figuras de referência - primeiro explorando o seu quarto, depois a casa toda, o parque infantil, toda a creche e depois e, mais longe, com os seus novos amiguinhos. Todo este processo deixa o coração dos adultos bem apertadinho, porque representa o “deixar ir” e o permitir que as asas comecem a crescer. Talvez pior ainda seja quando a criança se começa a afastar dos adultos mas para dentro de si mesma, quando ao invés de ir explorar o outro (debaixo do nosso olho, claro), começa a explorar o seu espaço interno...


Há uns tempos, numa primeira entrevista com uma mãe, esta contava-me, ligeiramente aflita, que o seu filho de 6 anos costumava querer ficar algum tempo sozinho, em silêncio no seu quarto. Senta-se no tapete do chão do seu quarto, de olhos fechados e perninhas à chinês – conta-me ele mais tarde – e ali fica, simplesmente a pensar. Aqui o adulto deixa de ver o que se passa, deixa de conseguir controlar o caminho que a criança toma, agora dentro de si, e começa a ser invadido pelos seus silêncios. Para esta separação, parece que ninguém nos prepara.


Para que servem os silêncios?


Vejamos, os silêncios são naturais no ser humano. A partir dos 4 anos, a necessidade de reter (como acontece com o chichi e o cocó, que tanto aprovamos!) começa a surgir, interligando-se com a capacidade da criança para organizar o seu pensamento, os seus segredos, as suas emoções - a sua intimidade. É aqui que a criança começa a querer esconder muito dos outros, apercebendo-se de que há coisas que devem ficar só para si e outras que podem ser comunicadas ao outro; é quando deixa de fazer tudo o que lhe apetece e passa a pensar em vez de fazer. Estes momentos de silêncio comunicam-nos que a criança está a pensar e é uma forma de construir a sua vida interna.


Uma criança que esteja muito tempo caladinha, metida consigo própria, é logo sinal de alarme para os adultos. As suas cabeças começam logo a fantasiar que algo está errado, surgindo mil cenários desastrosos, acompanhados por uma série de emoções “difíceis” de gerir: receio que a criança esteja deprimida, ansiedade acerca da atenção que se calhar não lhes chegamos a dar, desconfiança de que a criança pode, na verdade, estar a “chocar alguma” ou até curiosidade sobre se alguma coisa lhe faltará. Todos estes cenários criam uma inquietação tal nos adultos que se torna difícil tolerar os silêncios das suas crianças.


Cada vez que nos afligimos com os seus silêncios estamos a passar a mensagem errada às crianças, quase como se as proibíssemos de estar em silêncio, isto é, como se as proibíssemos de pensar porque isso nos incomoda. Para a maioria dos adultos a solidão e o silêncio são difíceis, sendo incapazes de suportar o silêncio em si próprios, mostram-se também incapazes de o respeitar nas crianças. É importante que também a criança entenda que comunicação não é só falar, às vezes o estar calado também é comunicar.


O que podem então os adultos fazer com os silêncios das crianças?


O silêncio comunica então que a criança está a pensar, que deu um mergulho dentro de si própria (o que acarta algum distanciamento do outro, claro), e serve para organizar e compreender aquilo que se passa lá dentro e, por isso, não deve ser invadido. Devemos dar abertura para que a criança, se quiser, partilhe espontaneamente o que se passou dentro dela naquele tempo. Contudo, é crucial respeitar se a sua decisão for não querer partilhar nada, respeitar o seu espaço, a sua intimidade e o seu silêncio. Não saber o que se passa dentro do outro pode ser muito aflitivo e pode despertar medo que gera comportamentos intrusivos da parte dos adultos, nos quais fazem perguntas exaustivas sobre o que as crianças estavam a pensar, por exemplo. É preciso respirar e aceitar o facto de que não vamos saber tudo sobre as nossas crianças e, arrisco-me a dizer, saberemos cada vez menos à medida que vão crescendo e entrando na adolescência.


Alguns desses silêncios são, no entanto, preenchidos por atos que pretendem comunicar a dificuldade que há em pensar sobre o que sentem. A maioria das vezes, as crianças não sabem traduzir aquilo que sentem por palavras e, por isso, agem - porque não têm a noção do que sentem e de que o que sentem pode ser traduzido por palavras e comunicado ao outro. Mostram-no então descarregando as angústias agindo, partindo objetos, batendo nos amiguinhos na escola, sendo mal-educadas, tudo sem terem a consciência daquilo que sentem e do porquê dos seus comportamentos - algo que poderá ser tema para outro artigo. Aquilo que podemos fazer é criar-lhe espaços onde possam “pensar com o corpo”, explorar o seu mundo interno através de brincadeiras, jogos e histórias que contam e ouvem contar, que as permita compreender melhor o que se passa dentro delas, tornando-se uma forma de comunicação com elas próprias ao mesmo tempo que comunicam connosco.


Há ainda silêncios que podem ser lidos no olhar. Os olhares podem ser sentidos e lidos pelos outros, são formas de comunicar e de mostrar aquilo que sentimos. Muitas vezes a criança encontra-se presa dentro da confusão que é aquilo que sente e precisa de sentir que há alguém que a conhece o suficiente para a ajudar a traduzir tudo isso. Alguém que lhe diga “sinto que hoje estás triste, se quiseres podemos conversar sobre o que sentes ou podemos brincar”. O silêncio, apesar de pouco reconhecido, é essencial na vida de qualquer pessoa e das crianças em particular. Os adultos vivem fugindo de estarem sós e com pavor do próprio silêncio e, por isso, roubam constantemente essa experiência às crianças.


O respeito por esta necessidade básica é uma prova de amor!


Por Márcia Arnaud



Então, perdoamos a Márcia?

Por mim está mais que perdoada mas só porque adorei o texto!

Agradeço mais uma vez esta participação tão preciosa aqui no meu cantinho virtual.

É uma honra estar aqui contigo, Márcia!


Já sabem, para seguir a Márcia de pertinho ficam aqui os links para as suas páginas:

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